*ANÁLISE
A recente votação na Câmara dos Deputados que derrubou o decreto presidencial de aumento do IOF que atingia pessoas de maior poder aquisitivo e a elevação da taxação sobre casas de apostas online expôs com clareza os interesses que norteiam o voto de parte dos parlamentares. A deputada federal Simone Marquetto (MDB-SP) esteve entre os que votaram a favor da revogação da medida, posicionamento que favorece justamente os segmentos mais ricos da sociedade e empresas que operam no bilionário mercado das chamadas bets.
O decreto presidencial não atingia a classe média nem os pequenos empresários. Ele previa um aumento da alíquota do IOF apenas para algumas situações específicas, como a compra de moeda estrangeira e uso de cartões de crédito de contas internacionais. Além disso, previa maior taxação sobre as casas de apostas esportivas, que hoje movimentam bilhões com baixa carga tributária e escasso retorno social.
A derrubada do decreto significa, na prática, renúncia de receita pública em um país que enfrenta limitações orçamentárias severas. O argumento usado por parlamentares contrários ao aumento do imposto, de que isso afastaria investidores, ignora o fato de que a carga proposta era pontual, específica e restrita ao topo da elite econômica, justamente o grupo que tem mais capacidade de contribuir.
No caso das casas de apostas, a situação é ainda mais grave. Operando muitas vezes sob baixa regulação e com sede em paraísos fiscais, essas empresas se expandem rapidamente no Brasil, patrocinando clubes, influenciadores e eventos, mas com tributação muito inferior à de setores produtivos. Ao rejeitar o aumento de impostos para as Bets, a deputada ajuda a perpetuar um modelo de lucro fácil, sem retorno social ou controle público eficaz.
O voto de Simone Marquetto revela uma contradição preocupante. Enquanto sustenta pautas conservadoras nos costumes, sua atuação econômica tem privilegiado setores com maior poder financeiro. A coerência entre discurso e prática, especialmente quando se trata de justiça fiscal, precisa ser exigida pelos eleitores.
Num país com tamanha desigualdade, esperar que os mais ricos contribuam proporcionalmente para o financiamento do Estado não é radicalismo, é responsabilidade. Somente a poucos interessa aliviar a carga tributária dos mais ricos e proteger empresas que pouco devolvem à sociedade, como é o caso das empresas de apostas.
Para ler mais do Correio, acesse a área de Política.

















