Crônica de Fuad Abrão Isaac
Há cidades que moram no mapa. Outras moram na memória.
Itapetininga sempre morou nos dois.
No começo do século passado, vestia terno e gravata. Era altiva, politizada, orgulhosa de seus homens públicos — como Fernando Prestes e Júlio Prestes — que levavam seu nome para além das porteiras. Formava professores, doutores na tradicional Escola Peixoto Gomide, abrigava faculdades, cultivava o campo fértil e um comércio que parecia pulsar no ritmo da própria terra.
Mas aquela cidade elegante também era fechada. Conservadora. Elitista. Havia salões iluminados e sombras do lado de fora. Havia sobrenomes que abriam portas e outros que nem chegavam à soleira. A memória, quando distraída, adoça demais o passado. E o passado, às vezes, tinha gosto amargo para muitos.
Nos anos 70, com aproximadamente cinquenta mil habitantes, ainda era possível atravessá-la quase inteira a pé — do DER à Avenida Peixoto Gomide, da Quintino Bocaiuva à Padre Albuquerque — como quem percorre a própria casa. O Mercado Municipal era extensão da roça; a Campos Sales, passarela urbana. Havia carnaval que juntava multidões, festivais de música que revelavam vozes, réveillon na Aparecida, encontros na praça e passos despreocupados na Virgílio de Rezende. As pessoas sabiam o nome umas das outras — e, mais que isso, sabiam suas histórias.
Depois, a cidade começou a crescer para cima e para os lados. Cem, cento e cinquenta mil habitantes. Condomínios murados, torres verticais, fachadas antigas substituídas por vidros espelhados que refletem tudo — menos o que fomos. O concreto avançou como quem tem pressa.
E a pressa quase sempre cobra pedágio.
Se antes havia muros invisíveis erguidos pelo conservadorismo, agora surgiram muros reais, guaritas, cercas elétricas. A segregação mudou de roupa, mas não desapareceu. As relações ficaram digitais, as praças perderam vozes, os carnavais silenciaram. Crescemos em número; diminuímos em convivência.
Mas talvez toda cidade precise se perder um pouco para se reinventar.
Itapetininga está nesse intervalo — entre a fotografia sépia e o letreiro de LED. Entre a lembrança do que foi e a dúvida do que quer ser. Se pretende tornar-se uma cidade realmente boa para se viver, terá que aprender a ser muitas cidades dentro de si, fortalecendo cada bairro, cada vila, cada história que ainda resiste.
Porque cidade não é apenas território. É afeto organizado em ruas.
E enquanto houver quem recorde seus festivais, critique seus muros e sonhe seus futuros, Itapetininga continuará viva — não só como extensão de terra, mas como consciência de si mesma.
















