A pesquisadora itapetiningana Juliana Mendes, formada em Física pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e mestranda no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/USP), representará o Brasil no congresso da The Minerals, Metals & Materials Society (TMS), que será realizado neste mês nos Estados Unidos. Ela será a única brasileira entre os participantes do evento, considerado um dos principais encontros mundiais dedicados ao avanço da pesquisa em materiais.
Juliana apresentará um estudo que investiga o comportamento de uma liga metálica alternativa a altas temperaturas, com potencial aplicação no setor nuclear. A motivação do trabalho surgiu da dependência brasileira do zircônio, matéria-prima essencial para a fabricação do zircaloy, material utilizado no revestimento de combustíveis de reatores e que não possui reservas naturais no país. Segundo a pesquisadora, desenvolver um material alternativo pode ampliar a autonomia tecnológica nacional e reduzir custos de importação.
A seleção para o congresso ocorreu após o envio de um resumo da pesquisa. Juliana conta que não tinha grandes expectativas de aprovação e foi surpreendida ao receber o comunicado dois meses antes do prazo oficial de divulgação. “A sensação foi indescritível, fiquei profundamente emocionada, apenas desejava que alguém enxergasse valor no meu trabalho. Perceber que uma pesquisa desenvolvida no Brasil estaria presente em um dos maiores congressos do mundo foi muito emocionante”, afirma.
Ela destaca o peso simbólico de ser a única representante brasileira no evento. “Me motiva de maneira intensa. É a oportunidade de mostrar ao mundo a força da pesquisa brasileira — uma força que nasce da criatividade, da resiliência e do compromisso de pesquisadores que fazem muito com pouco, e que, mesmo diante dos desafios, continuam produzindo ciência de excelência.”
Apesar da conquista, a pesquisadora ainda não conta com apoio financeiro para a viagem e segue tentando viabilizar a participação por conta própria. “Essa é a parte mais desafiadora. Ainda assim, sigo com fé e determinação, acreditando que instituições e pessoas vão reconhecer o valor dessa oportunidade não só para mim, mas para o nosso país. Cada passo que dou é movido pela certeza de que a ciência brasileira merece estar presente e ser vista”, relata.
Juliana desenvolve sua pesquisa no IPEN, instituição referência nacional na área nuclear. O instituto abriga o único reator nuclear de pesquisa em operação no estado de São Paulo e está envolvido no Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), projeto previsto para ampliar a capacidade de produção de radioisótopos e pesquisas no setor.
A trajetória da pesquisadora inclui formação técnica em Mecatrônica no SENAI, curso tecnólogo em Automação Industrial na FATEC e técnico em Eletrotécnica na ETEC. A graduação em Física, concluída em 2023, veio como a realização de um sonho de infância. Hoje, afirma que cada etapa “construiu um pedaço importante de quem eu sou como pesquisadora”.
Sobre as expectativas para o congresso, que será do dia 7 a 11 de dezembro, ela diz que quer “aprender, conhecer pessoas, entender novas pesquisas — mas, acima de tudo, quero viver essa experiência com o coração aberto”. Esta será sua primeira participação em um evento internacional. “Por isso mesmo é tão especial — é uma oportunidade única de dar visibilidade ao trabalho e ganhar experiência em apresentações internacionais”, comemora.
Juliana também destaca como vê o impacto da conferência na carreira. “A curto prazo, representa visibilidade e novas conexões. A longo prazo, pode mudar completamente meu caminho acadêmico e profissional.”
Em relação ao cenário nacional, afirma: “O Brasil tem pesquisadores extremamente competentes, mas ainda enfrenta desafios estruturais e de financiamento. Mesmo assim, produzimos ciência de alto impacto”.
Por fim, Juliana acredita que “ampliar investimentos, incentivar jovens pesquisadores e fortalecer parcerias com a indústria são caminhos essenciais para avançarmos.”
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