A maternidade costuma trazer mudanças na vida de uma mulher. No caso das chamadas mães atípicas, aquelas que cuidam de filhos com deficiência ou condições do neurodesenvolvimento, essas transformações podem ser ainda mais intensas, envolvendo desafios diários, reconfiguração de planos e busca constante por apoio. Nesse cenário, sonhos e esperanças mudam e dão lugar para a busca pela segurança. Essa é a história de Patrícia Antunes, mas também de diversas outras mães itapetininganas.
Ao relembrar sua vida antes da maternidade, Patrícia diz não se reconhecer. Para ela, ter duas filhas autistas e outro em investigação, a tornou uma mulher muito mais segura para correr atrás do que ela quer e sente que precisa. “O que sobrou daquela moça antes de ser mãe foi a minha esperança e minha determinação, e a maneira que eu vejo o mundo, que sempre tendo a ver o lado bom de tudo”.
Ela destaca que o apoio de outras mães em situação semelhante tem papel importante nesse processo. Grupos como o Mamacitas e o acompanhamento psicológico especializado contribuíram para que ela entendesse a importância do autocuidado. “Aprendi que cuidar de mim também é necessário para conseguir cuidar deles. Entendi que não é um egoísmo da minha parte. Priorizar a minha saúde também é válido”, diz.
Apesar disso, Patrícia relata que a jornada pode ser solitária, especialmente diante da falta de compreensão de parte da sociedade, até mesmo de amigos e familiares. Segundo ela, ainda há desinformação sobre o autismo, o que pode resultar em preconceito e isolamento.
Para ela, infelizmente, esse vazio de conhecimento acaba rebatendo na figura da mãe que, em muitos casos, é idealizada como ‘guerreira’. “Muito das vezes isso não é verdade. A gente faz o que dá para fazer e o que tem de ser feito. E eu sinto que, por conta disso, nunca podemos reclamar da sobrecarga, porque as pessoas idealizam que somos invencíveis, e na verdade tudo o que queremos às vezes é um abraço e chorar um pouco. E isso não é aceito”, expõe.
Atualmente ela tem buscado na terapia, no cuidado com a alimentação e no ballet, se reencontrar e melhorar. O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista da sua primeira filha, Eduarda, aos quatro anos, foi algo que mudou totalmente a sua vida por anos. “Eu tive que abrir mãos dos meus sonhos, tirar algumas pessoas das nossas vidas e também mudar completamente a minha rotina”.
Na época, segundo ela, havia pouca informação sobre o tema na cidade, diante disso, sua filha passava frequentemente por situações de bullying e preconceito tanto na escola, quanto de familiares. “Nesse meio tempo, eu também sofri um processo de ‘luto’ do filho idealizado, por tudo o que passavam de informação para os pais, era muito escasso e preconceituoso, então eu achava que ela nunca ia conseguir fazer nada. Teve escola em que os pais dos colegas dela, ao descobrirem o seu diagnóstico, proibiram os filhos de brincar com a Eduarda”.
Patrícia considera essa uma das fases mais dolorosas e difíceis de toda a sua maternidade, especialmente pois o diagnóstico também era recorrentemente invalidado por profissionais, situação que mudou somente quando ela investiu em um exame neuropsicológico. De acordo com ela, para a sua segunda filha, Elisa, de 11 anos, o caminho foi um pouco mais tranquilo. “Ela foi laudada faz dois anos, então já se tinha muito mais informação e os médicos estavam mais preparados para atendê-la. Agora o meu mais novo, Emanuel, está em investigação”.
Ela descreve seus dias como “uma correria”. Conforme Patrícia, uma mãe atípica não pode jamais reclamar ou se sentir exausta, é sempre um exagero da parte dela. “Por muito tempo eu me dediquei exclusivamente a eles, e acabei perdendo um pouco da minha identidade para viver apenas no modo mãe. Minha carreira precisou ser deixada de lado, meus planos são os planos deles e não possuo independência financeira por isso”, desabafa.
Em Itapetininga, ela alerta, esta situação parece ainda mais intensa com um acolhimento péssimo às mães atípicas, que sofrem com a invisibilidade em diversos lugares. “Nunca me senti vista em nenhum órgão municipal, apenas em grupos criados por mães na mesma situação e na Apae”, afirma. Segundo Patrícia, o município precisa mudar muito ainda, pois falta acesso a terapia, cuidado especializado e outras oportunidades para trabalhar a identidade e o reencontro dessas mulheres com elas mesmas.
“Sempre é uma luta constante. Infelizmente não se consegue nada nessa cidade sem ter de lutar pelos direitos que eles já têm! É um processo extremamente cansativo e estressante, pois nada funciona na prática aqui, só na teoria”, se indigna.
Apesar das dificuldades, Patrícia se orgulha de nunca ter desistido e de poder ver diariamente como os seus “pequenos” evoluíram, e continuam evoluindo dia após dia. “Dá uma sensação de que eu estou fazendo o certo, e que mesmo que as pessoas me julguem por colocá-los em muitas atividades, tem dado resultado. Sempre que os médicos e terapeutas os elogiam, enxergam potencial neles para fazerem o que quiserem, é incrível, não tem sensação melhor”.
Como mãe, ela celebra a sua esperança de que um dia as coisas realmente comecem a funcionar em prol do TEA e todas as pessoas que são atingidas, direta ou indiretamente, pelo espectro. “E claro, eu celebro a minha força e coragem por enfrentar tudo o que já passei e que vou continuar passando”, finaliza.
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