NO LARGO DOS AMORES ELES IAM E ELAS VINHAM

Quem não se lembra da Praça, ou melhor, do Largo dos Amores, hoje sem graça alguma? Ah! a Praça de antigamente! Onde os velhos sentavam-se ao cair da tarde, conversando de tudo e de nada e, em geral, vendo a vida passar! Onde os jovens e as moças flertavam pensando em noivados, casamento, em véu e grinaldas, flores de laranjeiras, tudo isso em frente ao velho e imponente prédio da Prefeitura, que os observava.

Quem não tem saudade das noites enluaradas, da banda do velho maestro Edmundo Caciacarro ou da banda do 5° B.C. que tocava retretas alegres próximas ao repuxo? E daí os olhares maliciosos dos mocinhos, dos sorrisos comprometedores das meninas, das piscadelas furtivas, daquele toque tímido de mãos, tão sutil, tão morno, tão celestial.

Havia quatro círculos desencontrados. Os dois do centro eram das moças e rapazes um pouco mais abastados. Fora, os dois mais humildes, também em alegria completa. Eles iam, elas vinham, num desencontro cheio de felicidade, destinado a outros encontros. E quantos não houve ali? E o Largo cercado pelo Bar Rodovia, Bar São Paulo, Café Caipira, Padaria São Francisco, Casa das Novidades, Bar Primavera, Clube Venâncio Aires, Pensão do Seu Jardim e posteriormente, da dona Ditinha, constituía o cenário romântico daquela época. Saudades dos vestidos rodados, das meias de costura atrás, dos cabelos encrespados pelos “papelotes”, dos sapatos de salto “Luiz XV” e de bico fino e que saiam das caixas de papelão para o “giro” de sábado à noite e aos domingos. O velho jardim era puro deslumbre. Tudo era felicidade e os jovens buscando ali o futuro naquele presente, que ficou no passado distante.

A praça era do povo, segundo o condoreiro Castro Alves. E todo o povo buscava nela a realização de seus sonhos e de suas fantasias. Diversos castelos imaginários não se construíram naquele local? Quantos sonhos não se tomaram realidade? Quantas realidades não se deixaram fantasiar na magia daquele ir e vir, jovial e buliçoso?

Eles iam, elas vinham. Dezenas de vezes. Ruidosos, sorridentes, apaixonados. Um perscrutador detinha-se noutro olhar mais doce, as promessas e os desejos tomavam forma, ao som da banda alegre ou do alto-falante instalado no topo do edifício Guidugli, que soluçavam canções melodiosas e sugestivas: “Tu és divina e graciosa, estátua”.

O repuxo respingava ilusão nas faces daquela juventude que adorava viver, sem rancores, sem vícios ou drogas, tendo nos olhos apenas o brilho da felicidade e da ilusão. A saudade é um grito lancinante!

E agora, onde estão aquelas rodas humanas, a rodar, rodar, numa engrenagem intrincada feita somente de fascinação e encantamento? Onde o sorriso confiante das jovens de cabelo permanente ou “pagem”, com saias “godê” guarda-chuva, dos rapazes de temo de linho, paletó jaquetão e calças boca de pito, gravata social e cabelo com “gumex ou glostora” e bigodinho à la Errol Flinn?

Tudo acabou. Agora o Largo dos Amores é outro. No entanto ­a saudade ficou. Da velha e querida praça, onde cada noite de sábado era uma festa e onde os contos de fada saiam de dentro dos livros para se tomarem reais. Nas lembranças e nos corações dos que viveram aqueles encontros de amor e de amizade ficou a eterna saudade, hoje com mais intensidade.

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