Conheça a PUPP: doença que atinge 1 em cada 200 grávidas e pode causar lesões e sofrimento emocional

Era um sábado comum de 2024. Naquele dia, completei a 34ª semana de gestação. As malas estavam arrumadas e eu deveria apenas me preocupar em finalizar as pendências para a chegada da minha filha. Contudo, o que parecia uma vermelhidão comum na minha barriga e uma leve coceira, virou um pesadelo. Eu não conseguia comer, trabalhar ou pensar nos preparativos para o parto. Apenas chorava e coçava minha barriga até sangrar. Minha pele queimou e meu emocional ficou muito abalado.

O diagnóstico foi o de “Erupção Polimórfica da Gravidez (anteriormente conhecida como PUPP ou PUPPP). Trata-se de uma dermatose benigna e comum do terceiro trimestre, caracterizada por coceira intensa (prurido) e manchas vermelhas que começam nas estrias abdominais. Quem explica o quadro é o Dr Cassiano Tamura Vieira Gomes, médico dermatologista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, mestre pela Pontificia Universidade Católica de São Paulo onde atua como chefe do serviço de Dermatologia no campus Sorocaba.

O especialista esclarece que a doença “não apresenta riscos para o bebê. Ela afeta principalmente as primigestas (mulheres na primeira gravidez) e as lesões duram, em média, de quatro a seis semanas no total, desaparecendo sozinhas após o parto. A incidência da Erupção varia estatisticamente entre 1 em cada 160 a 1 em cada 200 gestações, sendo considerada a dermatose mais comum do período gestacional. De acordo com o médico, há uma forte correlação com determinados perfis maternos e tipos de gestação:

a) Primigestas (Cerca de 70% a 75% dos casos);

b) Gestações Múltiplas: A incidência é significativamente maior em mães de gêmeos ou trigêmeos, devido à maior distensão da pele abdominal;

c )Sexo Fetal: Estudos indicam uma predominância de fetos do sexo masculino (aproximadamente 70% dos casos) e;

d )Ganho de Peso: Está estatisticamente associada a um aumento excessivo de peso materno durante o período gestacional.

O tratamento da PUPP foca exclusivamente no alívio da coceira intensa, já que a condição desaparece naturalmente após o nascimento do bebê. A abordagem varia conforme a gravidade dos sintomas.

O Dr Cassiano relata que medidas simples podem proporcionar alívio imediato, como é o caso dos banhos de aveia, compressa fria, o uso de roupas leves e evitar banhos muito quentes.

Entretanto, é enfático ao abordar que a automedicação na gravidez é perigosa, pois muitos medicamentos atravessam a placenta e podem afetar o desenvolvimento do bebê.

No caso da coceira intensa, a avaliação profissional é vital por três motivos principais:

1) Risco Fetal Oculto;

2) Segurança dos Medicamentos: Apenas o médico sabe prescrever a dosagem e a potência correta para a idade gestacional e;

3) Diagnóstico Diferencial: Existem outras doenças que causam manchas e coceira, como a sarna gestacional, herpes gestacional ou reações alérgicas a alimentos/medicamentos. Cada uma exige um tratamento completamente diferente e usar o remédio errado pode piorar a inflamação da pele.

O acompanhamento conjunto entre obstetra e dermatologista é o padrão-ouro para lidar com a PUPP. Enquanto o obstetra cuida da segurança da gestação, o dermatologista foca no seu alívio sintomático e na saúde da sua pele.

O diagnóstico correto exige muito rigor. A confusão, por exemplo, entre PUPP e dermatite atópica (ou outras alergias comuns) é muito frequente. A pele da gestante passa por muitas mudanças, e os sintomas visuais podem ser parecidos, mas as causas e os locais onde começam são bem diferentes.

Além disso, é fundamental diferenciar a PUPP de doenças como a colestase. “Embora ambas causem coceira intensa no final da gravidez, a diferença fundamental é que a PUPP é uma irritação da pele (inofensiva para o bebê), ao passo que a colestase é um problema no fígado que exige cuidado médico imediato devido a riscos fetais”, relata o profissional.
Logo, a realização de exames de sangue e o exame clínico minucioso da pele são altamente indicados e fundamentais antes de se fechar o diagnóstico.

Convivi com a PUPP por quatro semanas e afirmo que a coceira é absurda. Você sente a pele queimar e convive com medo extremo de prejudicar seu bebê. É um misto que se divide entre o desejo pelo parto antecipado e a preocupação em aguardar o momento certo.

Confira abaixo imagens das lesões causadas pela PUPP durante a minha gravidez:

O diagnóstico preciso e acompanhamento adequado ao caso garantiram a mim uma maior regulação emocional. Afinal, a incerteza e o medo assombram qualquer gestante roubando um espaço de preparação que deveria ser leve. Os últimos dias do parto representam a despedida de uma mulher que se vai para o nascimento de outra repleta por novos sentimentos e vivências.

Que os profissionais da saúde sejam sempre acolhedores e possam avaliar cada gestante com a peculiaridade e o afeto que o momento exige.

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