Por quem financiar?

Já faz algum tempo que existe uma campanha iniciada no Rio de Janeiro ou em São Paulo relacionada com o meio teatral brasileiro. Motivo: empresas nacionais, como a Petrobrás, Eletrobrás (esta com maior porcentagem de capital brasileiro), entre outras também poderosas de só financiar espetáculos teatrais com argumentos nitidamente nacionais. Ou seja, com temáticas autenticamente brasileiras, de cunho nacional; que seja passado no Brasil.

Se for um texto estrangeiro, mas com elenco brasileiro, nada feito. Avisa, empresas internacionais serão livres de apoiar financeiramente o que quiser. É apenas um projeto feito por uma parcela de grupos artísticos da Terra, evidentemente. É uma ideia nascente, nem foi enviada pelo Legislativo Federal ou Executivo, também Federal. E não é que é uma proposta interessante? Ninguém irá proibir de um teatro e cia desta pátria encenar qualquer dramaturgia internacional aqui em São Paulo, no Rio de Janeiro ou no Brasil afora. Só que o financiamento não será da indústria nacional.

O argumento destes grupos é que o Brasil é um país tão rico em tradições, fatos, culturas do passado e do presente, e que aparece menos nos palcos do que um da Broadway norte-americana, que quase sempre se apresenta em palcos brasileiros. Aparentemente as duas montagens, a brasileira e a nova-iorquina, exigem custosos recursos como o guarda-roupa, a cenografia, os ensaios, orquestras, corais, cantores, cenógrafos, luz, e tudo o mais que exige um espetáculo.

Só que há uma diferença essencial: o show da Broadway (aqui tomado como exemplo) já vem pronto de lá para cá e os empresários (de lá) exigem que seja remontado como se estivesse no original, ou seja, em um palco norte-americano. Durante os ensaios aqui, mandam vigilantes para observar se tudo ocorre no gosto norte-americano, sem nenhuma falta ou acréscimo. Senão, a representação poderá ser até interditada.

Os atores brasileiros parecem “bonecos” ou “marionetes” na representação. Há cultura nisso? Há enriquecimento artístico por parte dos atores? E da direção? Voltamos ao início: o Brasil é tão rico em tradições que (infelizmente) é mal mostrado nos palcos. Por exemplo, a montagem de um musical sobre Chiquinha Gonzaga, famosa concertista (piano, violão, compositora) que no início do século XX empolgou a provinciana Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, com suas composições como “Corta-Jaca” e outras peças lírica e marchas-rancho (“eu sou da lira, não posso negar…”, canções famosas e cantadas povo carioca). Chiquinha enfrentou a tudo e todos e chegou a ser apresentada no Palácio Presidencial a convite da primeira-dama do país, Nair de Tefé.

Se este espetáculo for bem representado (e financiado por um órgão público) deixará muitas luzes culturais e brasileiras a quem assistir. Principalmente para quem é totalmente alienado do passado da nação. Daí, porque gastar dinheiro público em textos estrangeiros, se no Brasil existem mil histórias daqui tão ou mais interessantes?

É o Brasil para os brasileiros. Poderá haver inúmeros espetáculos de cunho internacional, mas não financiados pelo dinheiro público.

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