Maternidade real e os desafios longe do ideal romantizado

Mayara Nanini
Especial para o Correio

A maternidade é, sem dúvida, uma arte. Você pinta, borda, grita, chora, vive intensamente e, em um misto de sentimentos, tem a certeza de que nunca passou por algo tão transformador. A trajetória – que não vem com manual de instruções – faz de você uma pessoa mais empática e reflexiva. Você não se importa em doar seu corpo, o tempo e suas cores mais belas. Recentemente li um post que dizia que os flamingos perdem a cor rosa enquanto criam seus filhos. Segundo a Thaís Vilarinho, do instagram @maeforadacaixa, essa mudança brutal só comprova que a maternidade tem o poder de tirar o melhor da gente para levar aos nossos filhos. Tal comparação trouxe o conforto que meu coração precisava. Nós, “mães de primeira viagem”, passamos por muitas fases e todas são recobertas por “culpas” e “medos”. Dizem que, caso o segundo filho venha, tudo fica diferente, mas até lá – se acontecer de fato – é um dilema por segundo. Contudo, é necessário “ que muito custe o que MUITO VALE”. E, criar um filho, gera sentimentos enriquecedores e mágicos.

Neste mês de maio celebro um ano do início do meu puerpério. Revisito ele com carinho e sou grata por cada momento do meu “maternar”. Lembro de quando minha noite se misturava com o dia e, enquanto todos dormiam a solidão invadia meu quarto. Não sei dizer se deixei muita coisa passar, apesar de ter vivido intensamente. Por vezes diziam “Criança gosta de rotina”, “Coloca no berço ou no carrinho”, “ Durma enquanto ela dorme”, “ Para de ser boba, ofereça mamadeira”, mas na prática os conselhos não funcionavam. O berço – tão lindo – foi recoberto por espinho, que, a qualquer tempo, me trazia o lindo sorriso noturno mais belo. Diante do “uni, duni, tê”, é claro que preferia me manter acordada e ser colo, para que minha filha conseguisse dormir. Colecionei dias sem dormir e a privação de sono gerou delírios absurdos. Contudo, se me perguntassem sobre repetir o ato de ser morada, colo e aconchego, diria que faria tudo outra vez. Permaneceria outros meses assim, se fosse preciso. Mesmo que meus braços não mais a envolvam, serei o colo que ela quiser, para quando precisar. A tarefa é linda e difícil. Tento, a todo tempo, ser a melhor mãe que meu corpo e mente conseguem ser e, quase todo dia falho miseravelmente. Mas qual mãe não passou por isso, afinal? Errarei mil vezes mais e me martirizarei por isso. Mas, no final do dia, agradecerei por tudo isso, que apesar de dificultoso, é prazeroso. É a resposta mais linda das minhas orações. E se você me encontrar pela rua, falando sozinha e em passos lentos, por favor, não me acelere. Sei que posso ter vivido alguns meses como uma folha em branco. Em outros momentos tinha a fisionomia de um dia nublado. A verdade é que estou onde deveria estar e é preciso respeitar o processo. Um dia revisitarei novas cores, até me aconchegar em alguma que combine com meu novo jeito de ser. Não serei mais a Mayara, que contemplava o vermelho das amoras, mas a de alguém arrebatada pela maternidade e seus nuances.

E assim, nesse misto de sentimentos e descobertas, saboreio dessa fase com as cores que a maternidade me deu: às vezes enfraquecidas ou intensas, mas sempre verdadeiras. Garanto que não sou mais feita de tons fáceis de identificar. Me transformei em uma aquarela complexa, onde cada pincelada guarda frases nunca ditas. E, mesmo sem o tom rosa de antes – assim como os flamingos -, carrego em mim a proeza como de quem ama com tudo o que tem. Porque, no fim das contas, a maternidade NÃO APAGA, sequer anula. Apenas RESSIGNIFICA. E eu, ainda que invisível aos meus olhos – e aos olhos de tanta gente – sigo equilibrando pratos em minhas metades – pintando – de um jeito meio torto – com amor e entrega, a mais linda obra que ousei criar: SER MÃE!

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