Para muitas mulheres a maternidade é algo desejado, sonhado e especial. Contudo, já na gestação, a mãe vive inseguranças antes desconhecidas. É o que reforça a socióloga Itapetiningana, Thais Maria Souto Vieira, 39 anos, que, após diagnóstico de trombofilia e 3 perdas gestacionais, engravidou do pequeno Sereno: “Meu filho é uma surpresa em meio a exames e tratamentos. Por esses motivos, ser mãe tem sido um momento especial e importante na minha vida, mas carregado de novas responsabilidades e inseguranças que eu desconhecia antes de ter um filho”.
O avanço da tecnologia auxiliou em grandes feitos, mas, o excesso de informação trouxe também a busca pela “mãe perfeita”. Segundo Thais, ao falar sobre a maternidade da cultura ocidental capitalista, observamos que o papel da mulher no mundo mudou, principalmente a partir da sua inserção no mercado de trabalho, quebrando a lógica de que o lugar da mulher é somente no ambiente doméstico: “O serviço doméstico, a profissão, a demanda da maternidade, o excesso de informação via celular, o desejo de criar filhos de forma mais responsável quebrando os ciclos de violência e traumas das gerações passadas por falta de acesso à informação, tudo isso é uma enorme carga mental e física que pode levar à exaustão”.
Nesse contexto, é possível observar que a falta de rede de apoio, muitas vezes, auxilia nessa exaustão. O que se vê é a frequente busca por palpites infundados e atenção passageira aos bebês e crianças, ao passo que as mães, em uma solidão imensa, não se lembram a última vez que tomaram um gole d’água:“Muitas transformações trouxeram grandes conquistas para as mulheres, porém essas transformações não podem partir apenas das mulheres e mães. Os casos de feminicídio, abandono paterno e mãe solo ainda estão aí aos montes. É muito difícil equilibrar os pratinhos se a mulher não tem uma rede de apoio. Esse nível de exaustão também tem um recorte de classe, uma vez que algumas famílias acabam pagando pelo serviço geralmente de outras pessoas para auxiliar em algumas demandas de cuidados”.
Quanto à cobrança que vem das gerações passadas, a entrevistada faz o alerta de que se trata de uma “memória afetiva” e que é seletiva. A ciência demonstrou que alguns hábitos precisaram se transformar ao longo do tempo: “Vemos por exemplo hábitos alimentares que impactaram na saúde, questões de saúde mental que não foram tratadas por preconceito ou falta de informação e diversos outros problemas que as gerações passadas carregam principalmente porque tomavam decisões na criação de filhos que não tinham embasamento algum na ciência. Hoje podemos contar com a ciência como aliada. Conhecimento, distribuição igualitária do trabalho doméstico e afeto é um bom caminho para formas mais justas de pensarmos uma maternidade menos exaustiva”, reforça ela.A verdade é que toda e qualquer mãe é uma marinheira, mas o oceano mudou de face. Antes ela navegava por correntes de tradição e memórias afetivas. Hoje, a cobrança por não deixar a profissão, o autocuidado, vida social e os serviços domésticos atrelados à superinformação deixam o mar mais agitado e levam à exaustão mesmo daquelas que possuem apenas um filho. Não se trata de fraqueza, mas de um ajuste de expectativa e julgamento daqueles que deveriam simplesmente apoiar.
As pesquisas mostram que a forma como somos tratados nos primeiros anos de vida irão impactar muitas coisas no futuro. Essa responsabilidade está latente na memória da mãe moderna que, por vezes, no único segundo que consegue dormir, sente o peso da culpa pelo emocional e comportamentos dos filhos somente em suas costas. Para Thais, é preciso um engajamento dos homens e da sociedade como um todo para que tenhamos uma distribuição mais igualitária das responsabilidades com bebês e crianças no próprio trabalho doméstico. Afinal, estamos cuidado do adulto de amanhã. É como diz o provérbio africano “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”.
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