O hóspede

Quando o encontrei no jardim de casa nem me espantei. O portão está sempre aberto! Cansei de tentar convencer a patroa de que portão, porta e janela devem estar sempre fechados. Não adianta meus argumentos. Ela acha que nada deve barrar a luz do sol, o cântico do vento, as bênçãos de algumas gotas de chuva ou o passeio luminoso de um vaga-lume aventureiro. Então desisti: ninguém precisa bater palmas e se anunciar, a passagem está livre! Por isso, meu ilustre visitante não teve dificuldade alguma em adentrar, como um confrade bem-vindo e ficar ali, talvez contemplando uma roseira espargida de chuva ou o farfalhar da samambaia que nunca se cansa de acenar, lá do canto! Fitei-o admirado. Afinal, se ele escolheu a casa onde estão meus livros, troféus, minhas poesias e, claro, Hemengarda, é porque deve ter alguma afinidade comigo. Há tantas casas na mesma rua, muitas até bem portentosas, mas por mistérios que jamais saberei enquanto inquilino da Terra, ele escolheu justo a minha humilde varanda! Por algum motivo, eu fui o eleito!
Ele tinha um porte solene e parecia querer dizer algo com os olhos. Apesar de nunca antes ter se dirigido a mim, sequer me olhado, senti-me completamente à vontade na sua presença. Nada em sua postura respeitosa denotava ameaça. Ao revés, em toda a sua silhueta um tanto rechonchuda, havia um quê de inocência, de bondade, de uma estranha magia, talvez realçada pela presença da rosa vermelha, que balouçava cortejada pelo vento.
Logo percebi que ele não falaria comigo naquela noite, pelo menos, da forma como eu estou acostumado a falar com os outros que atravessam o mesmo portão. Porém, dei-me por feliz por tê-lo conhecido e me apresentado. Nem sempre uma amizade começa logo no primeiro encontro. Minha jornada pelo tempo ensinou-me a ser paciente com os outros filhos da mãe natureza. Inclinei-me numa saudação e me afastei, deixando o visitante entregue aos seus pensamentos, quem sabe, divagando sobre os tortuosos caminhos que o trouxeram até ali!
Por vários dias e noites ele foi um hóspede fidalgo! Não me incomodou em nada. Aliás, foi menos barulhento do que minha vizinha e os bem-te-vis que acordam o mundo inteiro de manhã. Quando eu chegava com a lua, ele até se afastava educadamente para eu passar. Só teve um porém: Hemengarda, a princípio, ficou encafifada com o nosso visitante. Coisa de mulher! Ameaçou até usar sua vassoura de piaçava, presente de aniversário, que lhe dei de coração, caso o estranho não se comportasse como gente! Mas eu, usando de meus conhecimentos de Direito, tornei-me advogado dativo e defendi, com requintes jurisprudenciais, o direito adquirido de ir e vir do gentil e mágico visitante. Pelo menos desta vez minha contundente oratória venceu: enquanto durou a chuva, o sapo ficou no jardim!

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