Rafaelas

Dizem, cinicamente, que vencer é um detalhe, e o importante é competir.
Rafaela Silva, nossa judoca medalhista olímpica, deixou o anonimato, a discriminação e os olhares desconfiados pelo detalhe de conseguir uma medalha de ouro, lutando e vencendo as melhores do mundo.
A Rafaela que virou estrela, saudada em todos os ambientes, teria as mesmas virtudes, caso algum detalhe das lutas impedisse seu acesso ao pódio. Seria a mesma Rafaela, nada festejada e muito ignorada.
A Olimpíada é repleta de Rafaelas, que trazem muitas e heroicas histórias de vida, e deixaram as arenas disfarçando o choro e amaldiçoando os detalhes. Saem das disputas para a desconsideração pública.
Rafaelas existem aos milhões, tão desconsideradas que sequer sonham em ocupar os pódios do reconhecimento popular. São mulheres brancas, negras, amarelas, de todas as cores e classes sociais, que seguem vida afora, enfrentando e por vezes vencendo os rounds da vida.
O povo adora os vencedores, com o mesmo ardor com que menospreza os valores e exemplos que não rendem notoriedade. Somos, ainda, horda medieval.
Importantes atributos e virtudes, como a honestidade, ética, responsabilidade e fraternidade, já raros, são pouco divulgados, ficando restritos ao mais íntimo dos ambientes. É dificílimo encontrar um logradouro público com o nome de alguém cuja biografia seja: formou bons cidadãos, trabalhou, ajudou os próximos e foi solidária.
Rafaelas raramente são eleitas, e sequer arriscam candidaturas. É inusitado vê-las em cargos comissionados ou desfilando, sob aplausos, com uma tocha olímpica qualquer.
São simplesmente Rafaelas, avós, mães, irmãs, tias ou primas, lutadoras da vida.
Rafaela Silva deve ter seu valor reconhecido, pela distância e circunstâncias que percorreu, da saída ao ponto de chegada. No fundo, deve estranhar tantos aplausos, elogios e homenagens, nascidos de um simples detalhe.
Convém valorizarmos as Rafaelas da vida, e aplaudi-las mesmo que não alcancem os pódios da notoriedade.

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