Até 2015, o dia nacional da poesia era comemorado no dia 14 de março, data do aniversário do poeta baiano Castro Alves (1847-1871), porém com a publicação da lei federal 13.131, em 5 de junho de 2015, a comemoração oficial da arte de se expressar através de versos acontece no país no dia 31 de outubro, data que comemora o aniversário do poeta mineiro Carlos Drummond (1902–1987). Independente da data que se celebra esse nobre gênero literário, os dois especialistas procurados pelo jornal entendem que a poesia amplia o conhecimento do ser humano sobre a realidade.
Em Itapetininga, a doutora de literatura Maria Cecília Fontes, formada em Letras pela Universidade de São Paulo, é a criadora e mediadora do Clube de Poesia de Itapetininga. O grupo surgiu em 2018, muito em razão de sua admiração pelo universo literário do poeta, romancista e contista Guimarães Rosa (1908–1967). O grupo coordenado por Isadora Menk tem em média trinta integrantes e é destinado para aqueles que tem poesia na alma, segundo os participantes.
O grupo se reúne mensalmente para discutir textos e poesias. Atualmente, o grupo analisa o Guimarães Rosa. O próximo encontro já está agendando para o dia 30 de abril, onde irão se debruçar sobre um conto do autor: “Tarantão, Meu Patrão”, publicado no livro de contos “Primeiras Estórias”.
A professora Cecília diz estar estudando Guimarães Rosa porque sua meta capacitar o grupo a fazer a leitura da obra-prima do autor, “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956. “O livro é uma das obras mais difíceis já escritas, mais difícil inclusive que a obra ‘Som e a Fúria’, de William Faulkner”, comenta Cecília.
Além de Guimarães Rosa, a professora comenta que outro poeta que a encanta pela força de sua escrita e as visões extraordinárias sobre a poesia e a vida é o poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros (1916–2017), um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros, que estreou na literatura com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”, de 1937. “Para entender a poesia, sugiro a leitura de ‘Poesia é voar fora da asa’, de Manoel de Barros.
“A poesia é uma grande descoberta do mundo. Manoel de Barros era um grande descobrir do mundo, assim como Guimarães, Oswald, Mário de Andrade, entre outros. É preciso entender e deslumbrar a poesia pra entender a beleza que ela nos apresenta”, reflete.
Para Cecília Fontes, os poetas ao escreverem poesia desfamiliarizam a realidade cotidiana, através de metáforas, por exemplo. “Dessa forma aprendemos a olhar novamente a realidade com todas as suas nuanças, inventando novamente a realidade”, explica.
Se a poesia fortalece a relação do indivíduo com o mundo, a professora Cecília sempre reforça com os seus alunos que para se fazer poesia é necessário “ter o olhar de criança, pois a criança tem olhar mágico, ela percebe coisas que estão presentes no mundo mas que nós, adultos racionais, não percebemos”, explica. “O Guimarães Rosa, que tinha uma narrativa mito poética, dizia que escrever é voar fora da asa, olhar novas realidades, realidades maravilhosas que a razão nos impede de enxergar”, conclui.
Cecília Fontes explica que a leitura da poesia nos obriga a enxergar de novo a realidade, a resignificá-la de forma contínua. A poesia sempre provoca no leitor um abalo nas certezas da vida cotidiana, o convidando para um novo mergulho, uma nova possibilidade. “A poesia é redescobrir o mundo”, define.
A poesia, como outras manifestações artísticas, conduz a quem as observa um entendimento do mundo muito além da razão, escavando nas profundidades do ser humano e nas brechas do mundo. “Algo somente penetrável através da poesia. Ela nos permite analisar a vida e o homem, penetrando em sua transcendência”, pondera.
A professora entende que o ser humano atual dá muito valor a matéria, ao consumismo desenfreado e a avareza. “O homem se tornou em algo brutal, perdendo a sua capacidade de sentir”, comenta. Esperançosa, ela entende a arte como um caminho possível na possibilidade de mexer com a sensibilidade humana. “Para amar a poesia é preciso ter sensibilidade, já que a razão é limitada demais para enxergar a realidade. O homem está muito embrutecido. Entendo que quanto mais o homem se afasta da arte e da poesia, mais bruto ele se torna”, analisa.
Cecília entende que a poesia, assim como as demais manifestações artísticas: teatro, pintura, escultura, é, e sempre será, um instrumento de enriquecimento da sensibilidade humana, da ampliação de visão do mundo, da vida em si, entendendo que a possiblidade de estudar a poesia, a literatura, é um privilégio essencial.
Para a professora a poesia é fundamental no desenvolvimento do ser humano, sempre sendo um processo de ressignificação. “A poesia é metafisica, ela te dá olhares mais poderosos e enriquecedores. Tocando de maneira profunda a sensibilidade. Entendo que a poesia não é para compreender, mas incorporar. Manoel de Barros dizia que “a poesia é antes de tudo um inutensílio, sempre uma descoberta das coisas que eu nunca vi”, explica.
Apaixonada como poucos pelo assunto era ressalta que é “através da poesia que aprendemos a olhar uma árvore, uma estrela, uma nuvem. Nossa sensibilidade aumenta. Nós sentimos outro. A poesia é um caminho para o autoconhecimento, para se redescobrir, descobrir coisas em você cuja existência a pessoa nem desconfiava. Enfim, é uma construção de um mundo novo”, comenta.
“A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus
despropósitos” – Manoel de Barros
Portanto, se o leitor quiser se aprofundar no estudo da poesia, a professora Cecília reforça o convite para os interessados em participarem das reuniões do clube, mas alerta que é necessário ter muita paciência. “Como já disse, é necessário ser alguém que queira voar para fora da asa, pois a poesia sempre procura chegar as profundezas da vida humana, penetrar nas frestas do mundo da linguagem e nas entranhas da alma humana. É necessário ter uma visão de criança para poder entender a poesia. Pois é através da intuição e da visão mágica, que se caracteriza a criança”, explica.
“Para finalizar, gosto de citar o poema de Manoel de Barros, o meu poeta amado. Ele escreveu: ‘Tenho candor por bobagens. Quando eu crescer eu vou ficar criança’. Outro poema dele que gosto muito é ‘O Menino que Carregava Água na Peneira’, esta poesia tem ligação com criança e natureza”, conclui.
SERVIÇO – Para participar do grupo de poesia ligar para a professora Cecília 15 3275-1809
A Necessidade da Poesia
A poesia, como forma de manifestação literária, e por extensão artística, tem servido ao ser humano desde sempre não só para dar vazão à necessidade expressiva de seus anseios interiores, mas também para revelar a ele próprio o mundo e as paisagens que desconhece ou que persiste em não contemplar. E como parte dessa “revelação da realidade”, no trabalho intenso que faz com os sentidos e as nuanças das palavras, ela se propõe, por vezes, a denunciar o real e a fazer os indivíduos tomarem consciência da sociedade e das relações pessoais nas quais estão implicados.
Nesse sentido, o poeta labora para elevar a condição humana a patamares melhores, para tentar fazer que esse desvelamento da vida – o qual realiza por meio das palavras – ajude a florescer mais o caráter humano de nossas personalidades às vezes perdidas nos descaminhos da existência. Já dizia Ernst Fischer que “mesmo o mais subjetivo dos artistas trabalha em favor da sociedade” e, consequentemente, representa os desafios de sua própria época.
Mas o texto poético, para além de sua imbricação com o tempo e com as relações sociais, é uma ferramenta de capacitação da sensibilidade e do olhar. Nenhum leitor consegue permanecer indiferente depois de passar pela experiência acurada e vívida da poesia, pois ela mergulha-o em regiões insuspeitadas da percepção de si e do mundo, ou, parafraseando Otto Lara Resende, permite-o superar o vazio que se torna o campo visual de nossa rotina. Nas palavras de Octavio Paz, a poesia é a “ressurreição das presenças”.
Ademais, essa arte nobre usa como matéria-prima expressiva os signos da língua e neles busca o que Ricoeur chamada de “excesso de sentido”. O inusitado e a estilística da nossa linguagem cotidiana, ou a figuração semântica, ganham novas matizes na organização linguística do poema, o que nos revela uma outra característica essencial desse tipo de discurso: o esforço de compreensão que ele suscita e, com isso, o trabalho cognitivo e sensível que ele desperta. É notório que a cosmovisão viabilizada pela poesia necessita da mediação das palavras, sob as quais há uma extensa significação a ser descortinada. De acordo com Merleau-Ponty, a cultura nunca nos dá “significações absolutamente transparentes”, já que a “gênese do sentido jamais se conclui”. Se a poesia é uma forma de pronunciamento da linguagem calcado num dizer poético que não cessa de desvelar as coisas e o mundo, isso mostra que a realização poética está sempre aberta à reinvenção dos sentidos, ou seja, nela a “gênese do sentido” não se esgota.
Diante disso, ao tomar a leitura do poema, devemos adotar a postura que nos ensina Carlos Drummond de Andrade: penetrar surdamente e contemplar as palavras, com reverência e abertura ao inesperado, visto que elas escondem “mil faces secretas sob a face neutra”. Tacitamente elas nos convocam ao apuramento do olhar e à mudança de postura frente à realidade, desde que aceitemos aquilo que têm a dizer. E numa atitude inicial e vital, a única coisa que nos cobram é “Trouxeste a chave?”.
Daniel Paulo de Souza, doutor em Letras, professor e gestor pedagógico nas educações básica e superior.



















