O Jornal Correio resgata momentos marcantes de Itapetininga, revisitando reportagens e fatos que fizeram história há 20 anos. Nesta semana, republicamos a matéria de 2005: “Demolição de casarões apaga história da cidade”, que registrava a derrubada de antigos imóveis da rua Quintino Bocaiúva e a perda de parte importante da memória arquitetônica e afetiva do município.
Alberto Isaac
A antiga “Casa Curitibana”, hoje ocupada por uma distribuidora de embalagens, mas completamente reformada, comandada por Pedro Rogachesky, dedicava-se à fabricação de selas, arreios e outros artigos congêneres, enquanto do outro lado da rua, a “Casa Zebu”, de Gumercindo Soares Hungria, que perdurou no comércio por mais de setenta anos, também negociava com os mesmos artigos, ostentando em sua frente o famoso “cavalo”, montado por várias gerações da cidade. Na “Selaria Jokey” de Arthur Pie, de origem alemã, acrescentava à sua mercadoria o fabrico de malas para viagem. Uma casa acolhedora, com sua esposa d. joaninha, que bordava “extraordinariamente bem”, rodeada pelas meninas – todas muito bonitas. Quem recorda essas passagens é a professora aposentada Lenita Hungria de Lara, esposa do médico Otílio Lara, que nasceu naquele quarteirão da Quintino Bocaiúva, entre as ruas Júlio Prestes e D. Joaquim, vivendo as mais belas fases de sua vida.
Dos prédios existentes em décadas passadas, quase nada mais resta, ou melhor, dois edifícios, até esta semana ainda continuavam a constituir o perfil da rua, antiga “das Tropas”, mas vendidos, já-estão sendo colocados abaixo.
Próximo à área onde situava-se a residência de Gumercindo Soares Hungria e dona Dulce, pais de Dona Lenita, e onde nasceram também seus irmãos Zécassio Soares Hungria, Zita, o presidente do
MIS Roberto Soares Hungria, além do saudoso desembargador Paulo Rubens Soares Hungria, em cujo terreno funcionava até há alguns dias um estaciona- mento, existiam dois imóveis pertencentes aos descendentes de José Gomes da Silva – “Zequinha” – que em fins de 1920 adquiriu os edifícios e em um eles manteve uma sapataria, onde fabricava calçados com tal capricho que eram confundidos com os famosos “Clark”, de alto valor monetário, dos “mais elegantes”. Zequinha e sua esposa Alzira empenhavam-se em bem servir e não deixar perecer a qualidade do produto”. O primeiro dos imóveis, um sobrado, constitui-se em sua residência e, na parte inferior, a oficina de trabalho, enquanto que no segundo prédio, embaixo, funcionava o “Armazém Martins”, de Laert Martins, onde trabalhava o irmão Julio Franci. Tinha como freguesia sitiantes da zona rural e, através de cadernetas, fornecia latarias, secos e molhados e a tradicional “mortadela para os sanduíches que tanto as crianças gostavam”, lembra Lenita Hungria.
Uma das netas de Zequinha Gomes, a professora Leda Gomes Soares, hoje militando na Oficina Pedagógica local, filha do professor Armando, que aposentou-se na cadeira de psicologia da “Peixoto Gomide”, não esquece que as propriedades de seu avô, foram construídas – segundo informações – por Julio Reis, um português que aportou em Itapetininga no início do século passado e, suas obras lembravam, em muito, o estilo arquitetônico de seu país de origem. As casas, ora em demolição, foram ocupadas através dos anos, por lojas, bares, açougues, farmácias e oficinas de consertos de calçados, pontificando na época, Indalécio Pires.
O Gosto da amizade – Lenita Hungria sente saudades desse tempo em que as famílias se irmanavam, não importando credos, culturas, raças ou cor, “mas todos com coração aberto aos amigos”. E, na casa, que recentemente foi atingida por incêndio e agora encontra-se também em processo de demolição, existia o estabelecimento que vendia ferragens, de Jota Messias, pai de Aparício, José Mario e a única filha Nair, inteligente, linda e que se destacou pela simpatia e conhecimento como professora. Logo acima, a casa de Godofredo Belfort e da esposa Yolanda, “um gentleman”, que possuía a máquina de beneficiar algodão. Posteriormente, a casa foi comprada por Abílio Ayres, cuja esposa Palmira, leva o nome da atual vila, com pouco mais de 10 residências. Na esquina da “Quintino” com a Júlio Prestes, um imigrante Miguel Pucci, fabricava e vendia sapatos, inteligência italiana que contribuiu para o desenvolvimento de Itapetininga, educando os filhos Bruno, Aldo e Julio, sempre protegidos pela mãe D. Sétima. Posteriormente seu filho Júlio e a nora Vilma montaram fina loja de tecidos, visitada por gente de toda a região. “Tinha também a loja de seu Chico Rosa, com tecidos, armarinhos, artigos para pecuaristas e fazendeiros, com pelegos à mostra, na porta”, acrescenta Lenita, não esquecendo que a padaria do Alemão – ainda em funcionamento com outra direção – propriedade de Walter Shiquiera, com pães saborosos, bolachas e doces, além do pão chinês, especialidade da casa e inédito em nossa cidade.
Onde atualmente estão localizados os equipamentos da Cia Telefônica, erguia-se a residência da professora Maria Lucrecia e seu Nhoca e na atual sede do Senac existia o sobradão de dona Benedita Curt, que preparava os famosos biscoitos de polvilho, citado, inclusive na novela “Éramos seis”, da SBT. Lembrado na mesma novela, também tem o “Casarão dos Rezende”, hoje, perigosamente à venda, um dos únicos existentes na cidade, ainda em pé. Naquela época destacava-se o violeiro Nhô Maciel, pai de Fernando Maciel, um dos taxistas da cidade. Os amantes da viola reuniam-se no estabelecimento, ouvindo as mais variadas toadas e a verdadeira música sertaneja. Nas horas vagas Nhô Maciel “praticava o curandeirismo, sempre procurado por quase toda a cidade e sempre obtendo êxito nas curas”, relata Lenita Hungria. Ao lado da casa Zebu, uma fábrica de farinha e máquina de beneficiar arroz, pertencente à Plínio Tambelli, ocupava grande área. Casado com dona Franklina, constituiu-se em grande comerciante e, até hoje, no mesmo local, existe a residências e o espaço, agora transformado também em estacionamento. Tudo dirigido pelo seu filho, Plínio Tambelli Filho, o Tambelinho. Em frente à casa de Gumercindo funcionou a sapataria Matarazzo, do Tino (apelido do Sr. Costábile Matarazzo), pai de nove filhos, casado com dona Aparecida. Tralhador e honesto, atendia a freguesia com carinho e, tendo um ou dois filhos por perto, usava avental de sapateiro, mas sempre atento a tudo que se passava na rua. Antes a oficina pertencia a Adalino Franci, que já citamos acima, que também era músico e integrava a banda local. Muitas outras famílias e pessoas também fizeram parte dessa história nesse pedaço de Itapetininga, que formariam um livro. Na rua Quintino Bocaiúva, que hoje continua como uma das mais movimentadas da cidade, não se ouve mais o barulho das tropas que lá celeremente passavam, provocando turbulência. Com comércio ativo, mas nada que lembre as casas especializadas em montaria, ela vê transitar diariamente centenas de veículos, colocando o pedestre sob grande risco.

Para ler mais da coluna “No Correio há 20 anos”, clique aqui.


















